Saúde
16h40 03 Agosto 2026
Atualizada em 03/08/2026 às 16h40

Estudo sobre hepatites virais traça panorama da doença em onze anos

Por Redação TV KZ Fonte: Agência Brasil

Pesquisadores do Einstein Hospital Israelita realizaram uma análise abrangente de 200 estudos científicos publicados entre 2013 e 2024, utilizando dados de mais de 14,5 milhões de indivíduos, a fim de proporcionar um panorama detalhado sobre as hepatites virais no Brasil.

A pesquisa se insere no projeto Caracterização de Hepatites Virais em Populações Vulnerabilizadas, desenvolvido pelo Einstein, parte do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS).

O intuito é gerar conhecimento que fortaleça estratégias de prevenção e cuidados, contribuindo para o objetivo do Brasil de eliminar as hepatites virais até 2030. O estudo foi publicado na renomada revista científica PLOS ONE.

A pesquisa abrangeu dados relacionados a todas as hepatites virais: A, B, C, D e E.

“No geral, as pessoas tendem a se preocupar mais com as hepatites B e C devido à sua frequência e à possibilidade de se tornarem crônicas além de agudas”, destacou o coordenador do estudo, João Renato Rebello Pinho, do Departamento de Patologia Clínica do Einstein, em entrevista à Agência Brasil.

Hepatite A

A hepatite A se caracteriza como uma hepatite aguda, que pode manifestar quadros graves. Essa hepatite é prevenível através da vacinação. Entretanto, Pinho observou que a hepatite A voltou a ser uma preocupação no Brasil, principalmente entre homens.

“Identificou-se uma nova forma de transmissão, que ocorre pelo contato oral-anal durante relações sexuais, resultando em infecções pela hepatite A na população geral”, explicou.

Segundo o especialista, embora tenha se iniciado nos grupos de homens que fazem sexo com outros homens, a hepatite A se disseminou rapidamente entre todas as populações não vacinadas.

“É vital ressaltar a importância da vacinação, pois até as mulheres estão sujeitas a esse tipo de contágio”, enfatizou.

Por outro lado, ele descartou a transmissão entre indivíduos por contato superficial. A contaminação mais comum pelo vírus da hepatite A acontece através de alimentos e água contaminados.

A nova dinâmica de transmissão, observada na última década, está ligada a comportamentos sexuais. “A transmissão não ocorre como a do vírus da Covid-19, e requer contato íntimo específico”, comentou o médico.

A hepatite A, disseminada principalmente nas regiões Norte e Nordeste, continua endêmica na Amazônia. “Entretanto, temos observado casos entre homens acima de 18 anos nas regiões Sul e Sudeste, devido à falta de vacinação e comportamento sexual”, relatou.

Hepatites B e C

As hepatites B e C são majoritariamente transmitidas por meio de relações sexuais, mas a transfusão de sangue e o uso de substâncias ilícitas também representam riscos significativos. A transmissão de mãe para filho durante a gravidez e parto é igualmente preocupante. No entanto, o Brasil tem conseguido controlar a hepatite B e a transmissão do HIV de mãe para filho.

Rebello Pinho sublinhou a existência da vacina contra a hepatite B. Além disso, a hepatite B pode evoluir para formas crônicas, associando-se a complicações graves como cirrose e câncer de fígado. A vacinação, portanto, é essencial.

Tratamentos eficazes são disponibilizados para a hepatite B, mas a hepatite C, embora se pareça nas vias de contágio, não dispõe de vacina. Modernos tratamentos têm curado mais de 95% dos pacientes, segundo o especialista.

“Anteriormente, tratamentos eram ineficazes, mas atualmente há opções muito eficazes. O ideal é que as pessoas não contraiam hepatite C”, concluiu.

Para prevenir a hepatite C, é fundamental ter relações sexuais seguras e evitar o compartilhamento de agulhas. A transmissão por transfusões, embora rara, é um recurso que deve ser evitado.

Hepatite D

João Renato Rebello Pinho também abordou a hepatite D, frequentemente negligenciada. “Ela afeta, em geral, populações de baixo nível socioeconômico, que muitas vezes não têm acesso adequado aos sistemas de saúde”.

No Brasil, a hepatite D é comum na região amazônica, especialmente entre populações ribeirinhas, onde o diagnóstico é desafiador. É importante notar que a hepatite B é a mais prevalente no Brasil, embora a hepatite D siga associada.

“A hepatite D só ocorre em pessoas já infectadas pelo vírus da hepatite B. Portanto, a prevenção da hepatite D está intrinsicamente ligada à imunização contra a hepatite B”, explicou.

Os estudos revelaram que a maioria dos casos de hepatite Delta se concentra entre as populações ribeirinhas e na região amazônica, apresentando gravidade significativa.

Hepatite E

A hepatite E, embora menos conhecida, é originária da Índia, onde infecções graves e epidemias se tornaram frequentes, devido ao genótipo específico daquela região. No Brasil, a transmissão do vírus se dá principalmente através de zoonoses, especialmente por suínos.

A hepatite E não é tão severa quanto as outras hepatites, podendo ser assintomática, mas demanda mais pesquisas dentro do contexto da saúde pública brasileira.

Prevalência

Nos 200 estudos, a hepatite B se destacou como a mais pesquisada, seguida da hepatite C. A soroprevalência da hepatite A na população geral variou entre 33,3% e 67,8%, com taxas mais elevadas entre grupos vulneráveis, como imigrantes e indivíduos encarcerados.

A hepatite B, por sua vez, apresentou prevalência de 0% a 7,5%, com taxas mais altas na Amazônia. A hepatite C teve taxas que oscilaram entre 0,04% e 2,2%, com destaque em usuários de drogas.

A hepatite D foi relatada com prevalência entre 0% e 23,9% na região amazônica, enquanto a hepatite E variou de 0,9% a 59,4%, principalmente na Região Sul.

Planejamento

As informações obtidas pelo estudo do Einstein Hospital Israelita servirão para apoiar gestores e profissionais de saúde no desenvolvimento de iniciativas alinhadas às metas nacionais de eliminação dessas hepatites até 2030.

Proadi-SUS

O Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS), criado em 2009, objetiva aprimorar o SUS através de projetos de capacitação, pesquisa e gestão.

Esse programa conta com a participação de hospitais de referência na qualidade médico-assistencial, como A.C. Camargo Cancer Center e Hospital Sírio-Libanês, por exemplo.

Os recursos provêm da imunidade fiscal dos hospitais envolvidos, possibilitando a implementação de melhorias significativas no sistema de saúde brasileiro.

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